Descentralização da economia e do sistema financeiro: o novo normal

O novo normal

 

A guerra, aqui tão perto de nós, virou o mundo do avesso e tratou de nos avivar a memória de que nunca podemos dar como garantidos valores como a paz, a segurança ou a democracia. Neste conflito bélico que envolve diretamente a Rússia e a Ucrânia, mas que nos vincula a todos, um dado parece certo: nada será como dantes. No plano económico e financeiro, estamos a assistir a uma mudança de paradigma que pode transformar, nos próximos anos, o sistema financeiro, os modelos energéticos, as relações comerciais, as cadeias de abastecimento e o próprio funcionamento das economias mundiais. Falo da descentralização.

O atual conflito a que assistimos expôs as vulnerabilidades associadas ao facto da Europa estar fortemente dependente da Rússia para ter acesso ao gás natural. A realidade mostrou o quão perigoso é estarmos “reféns” de um único Estado (ou entidade) para o normal funcionamento da sociedade. É hoje óbvio que não podemos ficar nas mãos de organizações centralizadoras, na medida em que podem causar danos graves a uma escala global. Acredito que a solução para este impasse está, precisamente, na descentralização.

No plano energético, a Europa tem de investir verdadeiramente na produção da sua própria energia e diversificar as suas fontes de energia para reduzir a dependência da Rússia. Este poderá ser, aliás, um acelerador da implementação das energias renováveis no continente europeu. No caso de Portugal – embora a nossa dependência energética da Rússia seja menor face a outros Estados da UE – temos sol e vento em abundância. Porque não apostar mais nestes recursos naturais?

A descentralização deve também ser aplicada no que diz respeito ao acesso a bens alimentares. A Rússia e a Ucrânia são responsáveis por cerca de 29% das exportações mundiais de trigo. Teme-se que o conflito possa provocar uma crise alimentar mundial, em especial, nos países mais dependentes dos cereais produzidos nesta região. O tema é preocupante e exige por parte dos Estados a adoção de estratégias que promovam a produção interna de bens agrícolas e o investimento em tecnologias inovadoras que permitam aos países serem autossuficientes nesta matéria e terem acesso a bens alimentares essenciais – mesmo que isso represente um custo de produção mais elevado. Ao mesmo tempo, é também importante apostar na diversificação de parceiros comerciais externos, para se evitar situações de dependência excessiva de um único mercado.

O mesmo se passa no setor financeiro, onde a descentralização dos sistemas deverá acelerar nos próximos tempos. O contexto de guerra mostrou como as soluções DeFi (decentralized finance) – ou seja, instrumentos financeiros que não dependem de intermediários financeiros e que são executados através de smart contracts suportados pela tecnologia blockchain – estão a adquirir uma importância crescente. Recorde-se que as criptomoedas e os NFT são exemplos de soluções DeFi que não podem ser manipuladas por um agente e estão fora do controlo de qualquer entidade.

Estes ativos alternativos estão a ser utilizados pelos dois lados da guerra. Por exemplo, o governo ucraniano está a aceitar donativos em criptomoedas e anunciou que vai lançar uma coleção de NFT para apoiar o seu exército. Já do lado russo, pensa-se que as criptomoedas possam estar a ser utilizadas como forma de contornar a exclusão de alguns bancos russos do sistema SWIFT. Mas em ambos os lados da barricada, os cidadãos poderão utilizar as criptomoedas para protegerem o seu património da desvalorização das moedas locais.

A descentralização nas mais diversas áreas é, assim, um fator-chave para ganharmos uma maior resiliência e autonomia nas nossas economias. Acredito também que este é um caminho para retirarmos o poder (e a relevância) das mãos de quem não o sabe gerir.

Sebastião Lancastre, CEO & Founder easypay